Anatomia de uma fatura de eletricidade típica
Uma fatura residencial de eletricidade em Portugal tem, tipicamente, quatro tipos de custos: potência contratada, energia consumida, impostos/taxas e o custo da rede. Cada um funciona de forma diferente — e só podes influenciar alguns deles.
Para perceberes o conceito, aqui está como pode parecer uma fatura mensal de €80 para uma casa de 3 pessoas com consumo médio:
Nota o que isto significa: do teu €80, apenas €52,50 (65%) é energia que realmente consumiste. O resto são custos de infraestrutura, taxas e impostos que existem independentemente de consumires muito ou pouco.
Potência contratada — o custo fixo que toda a gente paga sem pensar
A potência contratada é o valor máximo de kVA que a rede elétrica garante entregar à tua casa em simultâneo. Em Portugal, os escalões mais comuns são: 3,45 kVA, 6,9 kVA, 10,35 kVA, 13,8 kVA e por aí acima.
Cada escalão tem um custo mensal fixo — independente do que consomes. Em 2026, os valores aproximados são:
| Potência contratada | Custo mensal aprox. | Quem precisa |
|---|---|---|
| 3,45 kVA | ~€7/mês | Estúdios, 2.ª habitação com pouco uso |
| 6,9 kVA | ~€14/mês | Apartamento T2–T3, uso normal |
| 10,35 kVA | ~€21/mês | Moradia, aquecimento elétrico, bomba de calor |
| 13,8 kVA | ~€28/mês | Moradia grande, equipamentos industriais leves |
Se instalaste uma bomba de calor ou deixaste de usar aquecimento elétrico direto, pode fazer sentido descer um escalão. Para verificar, o teu fornecedor tem acesso ao histórico de picos de consumo. Descer de 10,35 para 6,9 kVA poupa ~€7/mês — €84/ano — sem fazer nada.
A componente de energia consumida
Esta é a parte da fatura que varia com o teu consumo real — kWh que usaste multiplicado pelo preço por kWh. Em Portugal, em 2026, o preço médio da eletricidade no mercado regulado e nos principais comercializadores está entre €0,20 e €0,24/kWh no horário normal.
Os principais "comedores" de eletricidade numa casa típica são, por ordem de impacto:
Nota que aquecimento/arrefecimento e AQS representam 45–60% do consumo total. É exatamente aqui que a bomba de calor e o solar térmico têm mais impacto — e não é por acaso que são as tecnologias com melhores paybacks.
Tarifa simples vs bi-horária: quando vale mudar
Na tarifa simples, pagas o mesmo preço por kWh a qualquer hora do dia. Na tarifa bi-horária, há dois preços:
| Período | Horário (dias úteis) | Horário (fins de semana) | Preço aprox. |
|---|---|---|---|
| Fora de vazio | 08h00 — 22h00 | — | ~€0,24/kWh |
| Vazio | 22h00 — 08h00 | Todo o dia | ~€0,16/kWh |
A diferença de €0,08/kWh pode parecer pequena, mas se tens uma máquina de lavar (1,5 kWh/ciclo), lava-loiça (1,2 kWh/ciclo) e um carregador de veículo elétrico (7–11 kWh/noite), e deslocas tudo para o vazio, a poupança anual pode facilmente ser de €80–150/ano sem mudar nada no consumo real.
Se não consegues deslocar consumos para o vazio, a tarifa bi-horária pode sair mais cara — o preço de fora de vazio é superior ao da tarifa simples. A mudança só compensa se pelo menos 30–35% do teu consumo for em horas de vazio.
O que é a CIEG — e porque é tão alta
A CIEG (Contribuição para o Sistema Energético) é um encargo obrigatório que aparece na fatura e financia os custos de interesse económico geral do sistema elétrico português. Inclui:
As rendas garantidas a centrais hidroelétricas construídas sob contratos de longo prazo ("custos irrecuperáveis"), os apoios às energias renováveis em tarifas feed-in antigas, os custos de manutenção da rede de transporte (REN) e distribuição (E-REDES), e o défice tarifário acumulado de anos anteriores.
A CIEG representa tipicamente 12–20% da fatura total e é idêntica em todos os comercializadores — não podes negociá-la nem evitá-la. Quem tem solar reduz o montante absoluto pago (porque compra menos kWh), mas a percentagem da CIEG sobre o que paga pode até subir — porque passa a pagar menos na componente variável mas a CIEG tem uma parte fixa.
Se passas a consumir 60% menos da rede com solar, a tua fatura não baixa 60%. A potência contratada mantém-se, a CIEG tem parcela fixa, e o IVA aplica-se sobre o que sobra. Na prática, com solar bem dimensionado, a fatura cai 50–70% — não 100% — a menos que saias completamente da rede (off-grid), o que não faz sentido económico para a grande maioria das casas.
Como o solar fotovoltaico muda a tua fatura
Com um sistema de autoconsumo solar, cada kWh que produzires durante o dia e consumires imediatamente deixa de ser comprado à rede. Para uma moradia em Lisboa com 4 kWp de solar bem orientado, a produção anual é de ~5.000 kWh — o equivalente a 40–50% do consumo anual médio de uma moradia.
O impacto na fatura depende de quanto do solar consomes diretamente (autoconsume) vs. injectas na rede. Com um perfil de consumo típico sem bateria, a autoconsume ronda os 40–60%. Com bateria, pode chegar a 70–85%.
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Com base na tua fatura atual e no consumo real da tua casa, calculamos a poupança estimada antes de qualquer compromisso.
3 ações concretas para baixar a fatura agora
1. Verifica a potência contratada
Liga para o teu fornecedor e pede o histórico de picos de consumo. Se o teu consumo máximo nunca ultrapassou 5 kVA, estás a pagar por 6,9 ou 10,35 kVA sem necessidade. Descer um escalão pode poupar €7–10/mês (€84–120/ano) sem qualquer alteração nos hábitos.
2. Experimenta a tarifa bi-horária por 3 meses
A mudança de tarifa é gratuita e reversível. Muda para bi-horária e programa a máquina de lavar e o lava-loiça para as horas de vazio. Ao fim de 3 meses compares as faturas — se não poupaste, revertes.
3. Instala solar (o único que muda a fatura de verdade)
As medidas acima poupam dezenas de euros por ano. O solar poupa centenas. Para uma moradia típica em Lisboa, a poupança anual com solar está entre €600 e €1.000, com payback de 7–10 anos e vida útil de 25+ anos.
O portal ComparaJá.pt (regulado pela ERSE) permite comparar tarifas de comercializadores regulados e liberalizados com base no teu consumo anual real. Vale a pena verificar de dois em dois anos — as diferenças entre comercializadores podem chegar a 10–15% na componente de energia.
Perguntas frequentes
Conclusão
Perceber a tua fatura de eletricidade não é apenas uma questão de literacia financeira — é o ponto de partida para tomar decisões informadas sobre onde investir para poupar mais. A potência contratada e a tarifa são ajustes imediatos e baratos. O solar é o único que muda a fatura de forma estrutural e permanente.
Se o teu objetivo é cortar a fatura a metade ou mais, o caminho passa por autoconsumo solar — eventualmente com bomba de calor para substituir o aquecimento e AQS a gás ou elétrico. A combinação dos dois é o que a grande maioria das moradias na Grande Lisboa consegue hoje, com paybacks de 7–10 anos e poupanças anuais de €800–1.500.
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